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~ Quarta-feira, Novembro 18, 2009
 
Uma tarde

"Eu gosto de lugares assim, com esse ar europeu." Vista da varanda, a Rua do Rosário poderia tranqüilamente ser uma rua qualquer em Roma, Lisboa, Paris, alguma capital, ou até mesmo uma cidade não tão grande da Europa. As pessoas conversam, animadas, nas mesinhas, umas entre feijoadas e carne-de-sol, outras com seus capuccinos e financiers. "Eu também gostaria de viver um tempo na Europa. Na verdade, estudei em Barcelona por um ano e foi muito bom." Você também tem os dois pés no ar e brilho nos olhos. "Sabe, as pessoas falam que os franceses são arrogantes, mas, secretamente, eu gosto. Queria ser assim", você sorri, cúmplice. Nos divertimos com um amigo bêbado que chega à mesa e dou uma desculpa qualquer para sairmos dali. O centro do Rio num sábado à tarde parece ainda mais interessante. Às vezes é como se personagens antigos da história daquele lugar estivessem andando pelas ruas. No CCBB, a exposição é dura. A realidade congelada no tempo. Desisto da outra mostra. Seguimos em longos silêncios, pensativos. "Foi forte", você resume. "É", consigo dizer. No metrô, as palavras já não são mais tantas quanto antes. Mas o silêncio não é tão constrangedor assim, guarda uma certa intimidade. "Muito obrigado", você diz, antes que eu me despeça. Estou tão no ar que sigo na direção errada. Você desaparece no túnel. Eu espero o próximo capítulo.
~ Sexta-feira, Novembro 06, 2009
 
Ele e todas as coincidências do mundo. Ele e há cinco anos eu não me sentia assim. Ele e tudo isso é um sonho, por favor, não me acorda. Ele e vou voltar em cinco anos. Para o batizado do meu filho, brinco. Ele e eu vou estar bêbado, tão bêbado no seu casamento. Ele e, pensando bem, não somos tão parecidos assim; existem outras pessoas com quem eu me conecto também e isso quer dizer que não era bem assim. Ele teve medo? Ele e os emails que me escrevia todas as semanas que se seguiram. Até que um dia ele parou, e eu já não me importava mais. Até que vi que estava enganada. Ele e a vontade que eu tenho de contar tudo na minha vida pra ele. Até que eu não esqueci d'ele.
~ Sábado, Outubro 10, 2009
 
Viagem

Ele perdeu o casaco
Eu perdi os sentidos
Nos perdemos um no outro
~ Quinta-feira, Setembro 24, 2009
 
Atrasado

A voz dele não ecoa mais pelas palmeiras da rua Paissandu. Se quero escutá-la, tenho que me esforçar um pouco. A praça onde nunca sentamos para uma cerveja ganhou outro sorriso, que também nunca sentou por ali. Amores vão, outros vêm, e por que haveria de ser diferente com nós dois? Livros e músicas, um nascer do sol, uma maneira de ver a vida, eu nunca conheci que visse a vida assim também, como o seu filme preferido pode ser esse, filmado no bairro onde eu moro? Eu amo a sua cidade e sou carioca no coração, um dia eu vou morar aqui, não ter que fazer concessões num relacionamento não tem preço, porque nós gostamos das mesmas coisas e ninguém precisa abrir mão de nada. Já tenho saudade, muita, obrigado por me mostrar esse mar, eu não quero ir embora, nada vai separar a gente porque foi o destino que nos uniu, eu não acredito em destino mas eu sei, não fica triste, a vida é boa: a gente se encontrou. Todos meus amigos dizem que eu sou louco mas eu tenho muita certeza, desde aquele dia o meu sentimento não é o mesmo, a gente não foi feito um para o outro, eu só pensei aquilo porque eu estava no Rio. Ele nunca deixou de pensar na gente: era tão claro que seria assim, só ele não quis ver. Por meses as ruas do Flamengo todas esperavam que ele voltasse. Ou ao menos dissesse: desculpa, estou com saudade. Mas ele não dizia. Ele era homem, e por que haveria ser diferente de tantos outros?

Assim, suavemente, as esquinas, o portão de entrada, o porteiro emburrado: tudo foi deixando de ser dele, até mesmo o último pensamento da noite. E quando já não havia quase nada daquele azul onde dava vontade de mergulhar, um outro cheiro, outra camisa em cima do monte de roupas, outro bom-dia. A paixão não bate à porta, mas pode tocar a campainha. Desculpa, estou atrasado, disse você ao telefone, ainda sem saber o significado que essa frase ganharia mais tarde. Ele, do olhar infinito, ainda escreveu emails falando de saudade e boas lembranças. Mas era tarde demais.
~ Terça-feira, Setembro 01, 2009
 
Vida moderna

Ele tá de olho
no twitter dela.
~ Quarta-feira, Agosto 19, 2009
 
A sua vida resumida na primeira frase que me diz, antes mesmo de saber o meu nome. Tudo já confuso. Talvez eu devesse pedir licença e sair correndo, mas como resistir a tanta franqueza? No fim das contas, para mim ela é encantadora, quase ingênua. O salão e os corredores esvaziam e até a sua dúvida soa sincera. Tudo bem, eu digo. Viro as costas e me conformo em ir embora. Para te encontrar outra vez, logo adiante. Que bom que eu te achei, você me diz, e o seu sorriso é tão franco que até me faz parecer que não era justamente o contrário, e que tudo não passava de uma grande coincidência, se é que coincidências existem. É tarde e a Lapa já não está tão cheia quanto em outras noites. Você hesita. Eu e os outros insistimos, mas logo depois me arrependo. Talvez você já soubesse que aquela era apenas a hora errada. Talvez já previsse o nosso súbito desencontro. Logo agora que tudo parecia tão bem. Logo agora que sabíamos tanto um do outro. Logo agora que eu ia te dizer o meu nome. Que eu quis dizer que eu nunca tinha percebido que os seus olhos eram assim tão bonitos. Você jogou o sorriso no táxi e sumiu.
~ Segunda-feira, Março 30, 2009
 
Revirando os discos do tio-avô, falecido já há alguns anos, entre Chico Buarques e Marias Bethânias, entre um Julio Iglesias e um Francisco Alves, encontro discos infantis. Nunca teve filhos, mas era o DJ das festas familiares antes mesmo do nome dee-jay existir. Sorri ao perceber que essa delicadeza foi uma maneira de demonstrar afeto.

 

Lay-out por Davi Ferreira